24.3.10

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Poeta, escritor, jornalista, filósofo, Herculano Pires foi um estudioso da Doutrina Espírita, e um de seus maiores divulgadores. Autor de mais de 80 obras, a maioria dedicada ao Espiritismo, foi o grande defensor da pureza doutrinária, tendo sido definido por Emmanuel, por intermédio de Chico Xavier como “o metro que melhor mediu Kardec”.





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HORIZONTE ESPIRITUAL: MEDIUNIDADE POSITIVA



1. TRANSCENDÊNCIA HUMANA — A individualização espiritual
representa o momento de transcendência humana, ou seja, aquêle em que o
homem supera as condições da própria humanidade. Até êsse momento, ser
humano é estar ligado a condições animais, diferenciando-se das outras
espécies apenas pela razão. Há deuses e homens. Os deuses são entidades
espirituais, superiores, que vivem nos intermundios, gozando do privilégio da
imortalidade. Os homens são criaturas efêmeras, escravizadas ao solo, “bichos
da terra, tão pequenos”, segundo a expressão de Camões. Mas, quando a
evolução mediúnica abre as perspectivas do horizonte espiritual, o homem
descobre que êle e os deuses são semelhantes, e por isso mesmo se eleva
sôbre a condição humana, atingindo a divina.

Na antigüidade e na Idade Média, o dualismo humano-divino se
mostra bem claro. Um fenômeno mediúnico de possessão é sempre tomado
como manifestação demoníaca ou sagrada. O homem, não tendo ainda
atingido o horizonte espiritual, não pode conceber que o espírito comunicante
seja da sua mesma natureza. Para êle, trata-se de uma entidade estranha, boa
ou má. Entretanto, no horizonte profético de Israel, já aberto às perspectivas
espirituais, aparecem as declarações insistentes de que os espíritos
comunicantes são de natureza humana, como vemos nos casos espíritas da
Bíblia, Velho e Nôvo Testamentos.

Somente na era moderna, porém, essa
compreensão irá se tornar efetiva. Porque só então o espírito humano
amadureceu o suficiente, para que a promessa do Consolador, do Paráclito, do
Espírito da Verdade, possa cumprir-se. Ë pôr isso que o espírito de Charles
Rosma, ao comunicar-se em Hydesville, através da mediunidade das irmãs
Fox, numa família metodista, não é mais tomado como demônio ou deus, mas
como o espírito de um homem. Assim aceito, Rosma pode falar do seu estado,
do seu passado, e dar as indicações de sua passagem ocasional pela
residência em que foi morto, bem como das condições dessa morte e dos
indícios existentes no subsolo, que serão encontrados mais tarde.
Rosma pode ser tomado como um exemplo do fenômeno da
transcendência humana, que assinala o aparecimento concomitante da
mediunidade positiva.

Não encontramos mais, em Hydesville, o profeta bíblico,
nem o oráculo ou o pagé, mas o médium, ou seja, o indivíduo humano que se
tornou capaz de servir de intermediário entre sêres espirituais e carnais, ambos
da mesma natureza. Rosma, o mascate, morto na casinha de Hydesville,
transcende sua condição material humana, mas continua humano no plano
espiritual. De mascate, passa a espírito, e como espírito se comunica, graças à
mediunidade das meninas da família Fox. Já não estamos mais no plano
místico e misterioso do mediunismo, mas no plano científico, racional, da
mediunidade positiva.

Vemos assim que o aparecimento do horizonte espiritual é uma
decorrência natural da evolução mediúnica. Mas vemos também, como
assinala Kardec em “A Génese”, que essa evolução se realiza num contexto
histórico, juntamente com a evolução mental, moral e espiritual do homem, no
processo de desenvolvimento econômico-social da humanidade. Sem o
desenvolvimento científico, assinala Kardec, não se criaria no mundo o clima
necessário à compreensão do Espiritismo. Quando tratamos, pois, de
mediunidade positiva, não fazemos abstração das condições históricas que
propiciaram o seu aparecimento. Temos de encarar o problema no seu
contexto, para bem compreendê-lo.

A transcendência humana que caracteriza o horizonte espiritual não
significa, por isso mesmo, uma fuga ou uma deserção das condições humanas.
Pelo contrário, significa o aparecimento dessas condições, permitindo a
superação da animalidade e a transferência do homem para o plano antigamente
reservado às divindades, fôssem elas benéficas ou maléficas. Por outro
lado, essa superação não representa um passe de mágica, um fato
sobrenatural, uma descontinuidade no processo histórico, mas o seu
prosseguimento natural. Tornar-se divino é o próprio destino do homem. O
divino, como já dissemos, é aquilo que está acima do humano, assim como o
humano é o que está acima do animal. Dêste ao homem há a distância de uma
superação, mas essa distância não é vazia. Do homem ao divino há também
uma distância, que se prolonga através de fases evolutivas bem definidas.
Podemos falar, lembrando Einstein, de um “continuum” do processo evolutivo,
englobando matéria e espírito. Porque nesse processo não há solução de
continuidade.

Já vimos as fases evolutivas inferiores, em que o homem sobe, pouco a
pouco, do plano biológico para o social e dêste para o profético e o espiritual.
Mas nos dois últimos, o profético e o espiritual, já se iniciam as fases evolutivas
superiores. Veremos como essas fases se definem no plano mental, ao
analisarmos a série de concepções que constituem, no seu conjunto, o
processo de transcendência do horizonte espiritual. É pelo pensamento que o
homem se eleva, supera as condições da vida humana no plano físico,
atingindo as possibilidades de sublimação humana no plano espiritual. Ortega y
Gasset definia o homem como um drama. Nada nos oferece melhor visão dêsse
drama, em sua extensão e em sua profundidade, do que o estudo da evolução
humana à luz dos princípios espíritas.