No dia 9 de março, às vinte e uma horas e quinze minutos, em São Paulo, desencarnou o professor Herculano Pires em conseqüência de um enfarte. Tinha sessenta e cinco anos incompletos. Seu corpo foi enterrado no dia seguinte, às quatro horas da tarde, no cemitério São Paulo com enorme acompanhamento. Instituições espíritas e culturais fizeram-se presentes, destacando-se a União Brasileira de Escritores e a Academia Paulista de Letras. Falaram à beira do túmulo o deputado Israel Dias Novaes, o qual frisou que naquele instante se fazia o enterro de um grande brasileiro; o deputado e jornalista Freitas Nobre, em nome do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo (a bandeira do sindicato cobria o caixão); o professor Rino Curti, da FEESP; e, entre outros, o autor destas linhas, que falou em nome dos espíritas dos demais Estados. O filho de Herculano Pires agradeceu as homenagens.
Logo após o desencarne Herculano deu mensagem
O fenômeno é raro, mas autêntico. Todos se recordam de que Allan Kardec e Cairbar Schutel (dois exemplos clássicos) se manifestaram logo após o passamento. Herculano Pires, na condição inegável de espírito superior e grande conhecedor da mediunidade, fez o mesmo. Ora, no momento em que o mestre sofreu o enfarte realizava-se uma sessão mediúnica em seu lar, onde há anos o Grupo Espírita Cairbar Schutel vem desenvolvendo suas atividades. Alguns familiares, que não participavam da sessão, levaram o professor para o hospital, mas em silêncio, a fim de que o trabalho mediúnico prosseguisse. Terminada a sessão foram lidas duas mensagens psicografadas; uma, sem assinatura e que atribuímos a Cairbar Schutel (patrono do grupo) referia-se, claramente, ao desencarne e a outra era do próprio Herculano Pires e dirigida à sua esposa, dona Virginia. Curioso, é que nenhum dos participantes acreditou nessas mensagens porque Herculano Pires gozava de boa saúde; e pelo fato de que a mediunidade de Artur Puxiam, ainda em desenvolvimento, carecia de estabilidade... Mas o ambiente espiritual era bom e Herculano Pires manifestou-se, mesmo.
Dados biográficos de Herculano Pires
José Herculano Pires nasceu no dia 25 de setembro de 1914 em Avaré, no Estado de São Paulo. Seu pai, José Pires Correa, era jornalista e farmacêutico; a mãe, dona Bonina Amaral Simonetti Pires, pianista. Realizou os primeiros estudos em Avaré, Itaí e Cerqueira César. Os preparativos para o curso normal foram feitos em Botucatu. Desde garoto sentia-se atraído pelo jornalismo e literatura. Com apenas quatorze anos de idade transformou o jornal político de seu pai (O Porvir) em semanário literário. E aos dezesseis anos lançou seu primeiro livro de contos (Sonhos Azuis) e aos dezoito, um de poesias (Coração), passando a colaborar, então, nas grandes revistas do Rio de Janeiro, como "A Cigarra", "O Malho" e a "Revista da Semana". Em 1938 casou-se com Maria Virgínia de Anhaia Ferraz, com quem teve quatro filhos e que lhe foi um sustentáculo por toda a existência. Em 1940 o casal transferiu-se para Marília, onde Herculano Pires dirigiu o "Diário Paulista", de sua propriedade, durante seis anos consecutivos. E em fios de 1946 fixou-se em São Paulo, mas trazendo o romance "O Caminho Meio", que a editora Brasiliense lançaria e que seria saudado por Afonso Schmidt e José Geraldo Vieira, então os maiores romancistas paulistas. Nos "Diários Associados", onde se engajou, imediatamente, foi repórter, redator, secretário do "Diário da Noite" e cronista parlamentar, durante cerca de trinta anos.
Dotado de uma cultura humanística, enciclopédia, Herculano Pires, deixou, aproximadamente, setenta trabalhos. Fez romance, novela, poesia, ensaio, crônica... Em todos os gêneros literários foi grande; dentro e fora do movimento espírita.
O professor Herculano Pires era graduado em Filosofia pela Universidade de São Paulo. E regeu a cátedra de História e Filosofia da Educação na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara; foi membro do Instituto Brasileiro de Filosofia, membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo; presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Est. de São Paulo; presidente do Instituto Paulista de Parapsicologia; diretor da União Brasileira de Escritores; presidente e um dos fundadores da primeira instituição com o objetivo de unir os jornalistas e escritores espíritas, o Clube dos Jornalistas Espíritas de São Paulo, onde durante longos anos realizou os seus famosos "serões espíritas" e cursos de Espiritismo.
Sua iniciação espírita
Herculano Pires tornou-se espírita pelo raciocínio. Em criança tivera visões mediúnicas e, bem jovem, iniciou a Busca da Verdade. Um primo de seu pai, Francisco Correa de Melo, levou-o, então, para a Teosofia, não obstante fosse toda a família católica. O estágio na Teosofia, porém, pouco durou. Herculano Pires desejava provas, que a Teosofia não podia oferecer. Foi quando, descrente e já quase materialista, leu "O Livro dos Espíritos", que o converteu, irreversivelmente. Tinha Herculano Pires, então, vinte e dois anos de idade.
Sua primeira fase no movimento espírita
O mandato espiritual de Herculano Pires começou a desenvolver-se em Marília, através do jornal, rádio e palestras em centros espíritas. Ativou de tal forma o movimento na região, que Marília foi escolhida para ser a sede do I Congresso Espírita da Alta Paulista, em 1946. Foi devido à tese de Herculano Pires participou, ativa-mente, do I Congresso Espírita Paulista, o qual aprovou a fundação da União Social Espírita (USE). Logo depois seria instalado o I Congresso Educacional Espírita Paulista, projetado e convocado pelo mestre, Luisa Peçanha de Camargo Branco, Sebastião Gonçalves e José Paneta; uma idéia arrojada para a época. Foi desse congresso que nasceu o Instituto Espírita de Educação.
Herculano Pires, mais tarde, foi eleito vice-presidente da USE. A instituição, todavia, sofrendo pressão de alguns confrades, persistia em enveredar pelos caminhos políticos e Herculano, então, com toda a dignidade renunciou ao cargo. Mas, notemos, não abandonou a USE - o Clube dos Jornalistas Espíritas de São Paulo, que era a menina de seus olhos, continuou adeso. E o mestre nunca mais fez parte da diretoria de entidades de cúpula.
Sua segunda fase no movimento espírita
Encerremos este trabalho (feito às pressas, a fim de que pudesse ser incluído nesta edição do "Correio") com a transcrição do que escrevemos para um outro jornal.
Quem assume responsabilidades de divulgação e orientação no campo doutrinário não pode esconder a cabeça na areia quando a tempestade ruge - dizia Herculano Pires. E toda a vez em que o movimento espírita se viu encoberto pelas nuvens umbralinas, o gigante saiu de peito aberto a campo e afastou-as às vezes com um sopro só. Todos se recordam de seus debates na TV e na imprensa com médicos, padres, pastores, jornalistas, em defesa dos princípios espíritas. E de médiuns de sua confiança. Como Zé Arigó. Apenas no caso das materializações de Uberaba, que envolveu Chico Xavier, o mestre, infelizmente, pouco pôde fazer pelo fato de que a revista "O Cruzeiro", que promoveu o escândalo em todo o País, pertencia à cadeia dos "Diários Associados" – e a diretoria impediu-lhe a réplica, inclusive, pela TV-Tupi. Mas, mesmo assim, orientou o movimento doutrinário através de sua coluna espírita e folhetos. Foi por essa razão, é óbvio, que Chico Xavier, acompanhado por Waldo Vieira, veio ter à nossa casa e pediu que fizéssemos a defesa pública das materializações, passando-nos uma pasta com fotografias, fotocópias etc. Com Herculano Pires ao lado o trabalho teria sido bem mais fácil.
Algumas pessoas de muita sensibilidade achavam que Herculano Pires, nesses debates pela TV, devia ser paternal com os opositores... É curioso! Como poderia o mestre tornar-se suave ao ver a Doutrina massacrada perante milhões de telespectadores? Nem Jesus agiu com mansidão ante a petulância dos fariseus vaidosos -escreveu Herculano Pires. "Nem Kardec deixou de defender a Doutrina em nome de um falso conceito de fraternidade, e defendê-la com firmeza e energia, empregando as palavras devidas. As sensitivas que murcham ao ser tocadas não são flores do jardim espírita. Porque espiritismo requer virilidade e franqueza de seus adeptos, o sim, sim e não, não do Evangelho, para impor-se neste mundo de ambigüidades e comodismos".
E, por assim pensar e agir desde os vinte e dois anos de idade, quando sua consciência despertou para a realidade espiritual, é que se tornou um invencível apóstolo da Verdade. Era respeitado, inclusive, dentro dos movimentos culturais do País. E tão respeitado, acrescentemos, que um de seus livros, não obstante declarada-mente espírita, obteve o Prêmio Municipal de Literatura. Herculano Pires se impunha pela inteligência e sua obra mas, antes de tudo, pelo caráter superior. Ele foi, como diria Guerra Junqueira, uma rajada de luz na escuridão. O próprio deputado Israel Dias Novaes, que nunca teve laços com o Espiritismo, deixou isso evidente no discurso à beira do túmulo ao proclamar que Herculano Pires fôra um grande brasileiro. E o mestre o foi, de fato.
Missionário da Espiritualidade Superior, Herculano Pires traduziu Kardec, batalhou pela pedagogia espírita, através da revista "Educação Espírita", que ele dirigiu, e escreveu livros doutrinários de estudo obrigatório; inclusive, "O Verbo e a Carne", de parceria com Júlio Abreu Filho e diversos com Emmanuel. Foi jornalista, escritor, parapsicólogo, filósofo, pedagogo e o mais notável conhecedor do Espiritismo em seus três aspectos, como acentuou muito bem Chico Xavier. Por tudo isso, e muito mais, bem merecia Herculano Pires ser chamado de "O Kardec brasileiro"; mas, como esse título com justiça, já foi outorgado ao grande cearense Bezerra de Menezes, cognominaremos o mestre paulista de O LÉON DENIS BRASILEIRO. Os futuros historiadores da Doutrina, certamente, concordarão conosco.