
Humberto Mariotti, o renomado filósofo e poeta argentino, líder do movimento espírita em países de língua castelhana (que notável orador foi ele!), assim escreveu a propósito da formatura de Herculano Pires:
"O destacado pensador brasileiro fez-se filósofo universitário com o único objetivo de possuir a autoridade necessária a fim de penetrar nas essências filosóficas do Espiritismo. Mas podemos dizer que o seu ser já era um filósofo de nascimento. Certamente em outras existências sua brilhante inteligência havia estado em contato com os grandes pais da Filosofia. Talvez a Grécia de Sócrates e Platão o conhecera entre os peripatéticos meditando sobre o Ser, seu conteúdo existencial e suas projeções teleológicas. Por isso, mesmo sem obter a graduação universitária como filósofo, sua brilhante inteligência poderia igualmente dialogar com Heidegger, Jaspers, Sartre, Maritain, etc., pois havia em seu espírito uma raiz profundamente metafísica que lhe permitia relacionar-se e de imediato com os grandes problemas da filosofia moderna."
Humberto Mariotti tem plena razão. Mas é inegável que o estudo sistemático da filosofia não somente aprofundou como alargou ainda mais o horizonte cultural de Herculano Pires e, por isso mesmo, a partir de 1957 nenhum evento importante seria realizado no movimento espírita paulista sem as lideranças ouvirem antes sua opinião, a qual unia sempre o bom-senso à sabedoria.
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| Herculano Pires no dia em |
Na verdade, a partir daquela data o mestre se tornaria magistral no aprofundamento da interpretação dos textos da Codificação kardeciana. Dissera Chico Xavier, inspirado por Emmanuel, que Herculano Pires fora o metro que melhor mediu Allan Kardec. E Chico Xavier bem o dissera, porque Herculano Pires mostrara, inclusive, que são indestrutíveis os postulados da Doutrina Espírita quando em confronto com a moderna cultura científica.
O movimento espírita, portanto, tinha a obrigação espiritual de ser fiel à Codificação. Leia-se a propósito este trecho de Herculano Pires extraído do editorial publicado no número um de "Unificação", órgão oficial da USE:
"A obra de Kardec não é apenas a obra de um espírito missionário, mas a de toda a Falange do Espírito de Verdade enviada à Terra pelo Cristo para relembrar os seus ensinos "em espírito e verdade" e completá-la de acordo com os novos tempos. Bastaria isso para nos mostrar o dever de fidelidade que temos para com O Livro dos Espíritos e toda a Codificação. Não se trata mais de um apego emotivo aos livros de Kardec e aos seus princípios. A nossa fidelidade é dever espiritual, baseada na razão, na verdadeira compreensão do problema histórico do desenvolvimento do Cristianismo."
Herculano Pires em seus livros e artigos voltaria a fazer essa advertência por demais oportuna, ainda hoje.
Humberto Mariotti, por enquanto, foi quem mais se aprofundou no exame da extraordinária obra filosófica de Herculano Pires e, por isso mesmo, dele nos servimos. Em seu já citado ensaio considerou-a "a mais importante da América Latina" e Herculano "o mais destacado filósofo espírita dos tempos atuais".
E mais, ainda: reconheceu o filósofo argentino que Herculano Pires foi quem "colocou na América o Espiritismo na via filosófica".
Observações agudas, estas de Mariotti, principalmente a última, porque nossos escritores da América Latina apenas arranharam a superfície da Filosofia Espírita, enquanto Herculano Pires com seus livros fizera com que o Espiritismo entrasse firme pela via filosófica, realizando, assim o desejo expresso por Allan Kardec na Revue Spirite. Afirma Mariotti:
"O Espiritismo, entrando na via filosófica como anunciara Kardec, converte-se na luz que se projeta sobre o conhecimento de todas as idades. O filósofo brasileiro compreendeu com Léon Denis e Gustave Geley que a dialética é o melhor método ético para valorizar e compreender o intrínseco e o extrínseco da lei de causas e efeitos no processo evolutivo e moral dos Espíritos. Herculano Pires possuía uma cosmovisão espírita emanada da imponente codificação kardeciana. Em tudo percebeu uma divina teleologia que superará os delineamentos materialistas do homem e do universo. (...) Um filósofo como J. Herculano Pires é capaz de compreender a parte débil e falível do conhecimento; por isso seu espírito adentrou nos sistemas mais intricados da filosofia moderna e contemporânea com o fim de constatar as lacunas que apresentam no que diz respeito à verdadeira espiritualidade do homem e da natureza."