Em 1971, depois que Chico Xavier brilhou no programa Pinga-Fogo, o jornal Diário de S. Paulo criou a coluna dominical "Chico Xavier pede licença", que logo ficou famosa por divulgar mensagens recebidas pelo médium mineiro, comentadas por J. Herculano Pires, utilizando-se do pseudônimo Irmão Saulo.
Reproduzimos aqui a coluna intitulada Lição de trânsito, com o texto Determinismo e liberdade, ditado a Chico Xavier pelo espírito Emmanuel, relacionando os temas do título às lições do trânsito do mundo. Herculano comenta a psicografia por meio do seu texto Querer e fazer.
LIÇÃO DE TRÂNSITO
Francisco Cândido Xavier
Após leitura da questão 851 de O livro dos espíritos e debates sobre o livre-arbítrio, Emmanuel nos deu a página mediúnica da noite que lhe envio para a nossa seção domingueira no Diário de S. Paulo, com a sua complementação para os nossos estudos.
Emmanuel nos oferece a lição do trânsito, que nos parece fácil de compreendermos.
Emmanuel
Observando que determinismo e livre-arbítrio coexistem nos destinos humanos, ajustemos o assunto às lições do trânsito no mundo, regido por leis que nos lembram a temática em exame.
Imaginemo-nos assumindo o compromisso de realizar certa viagem na Terra, que, no caso, seria uma nova reencarnação.
Nas diretrizes do inevitável, estão ingredientes importantes, como sejam:
O carro significando o corpo físico.
As companhias expressando a equipe familiar.
A estrada a percorrer, a tarefa de base.
A obediência aos sinais, o acatamento às ordens da guarda.
A apresentação de documentos legais, a condução de recursos socorristas, indispensáveis à sustentação do veículo.
O pagamento de pedágio, os riscos naturais.
No campo da ação livre, ser-nos-á lícito considerar os pontos seguintes:
A proteção em favor da máquina nos corresponda as expectativas.
A observância aos preceitos do trânsito.
A colaboração espontânea com aqueles que nos cruzam o caminho para que acidentes sejam evitados.
O cuidado nas ultrapassagens.
A cautela contra brincadeiras e imprudências.
O apreço para com as autoridades.
A abstenção de avanços temerários.
O sustento da atenção no trabalho.
A previsão de crises prováveis com os elementos de solução aos problemas que possam surgir.
Segundo é fácil de ver, em qualquer viagem terrestre, estão juntas as obrigações fatais e as decisões independentes, em função concomitante.
Assim é a romagem da reencarnação nos caminhos planetários.
O espírito jaz temporariamente submetido a deveres inevitáveis, mas dispõe de livre arbítrio para melhorar ou comprometer qualquer situação.
(Página recebida pelo médium Francisco Cândido Xavier, em reunião pública do Grupo Espírita da Prece, na noite de 30/04/1976, em Uberaba, MG)
QUERER E FAZER
Irmão Saulo
Se quisermos fazer alguma coisa, isso pode ser determinado por fatores interiores ou exteriores. Mas se decidirmos fazê-la, dando livre curso ao impulso, isso mostra que temos a liberdade de fazer ou não fazer.
As discussões sobre determinismo e liberdade são também uma prova de que dispomos de livre-arbítrio. Quem examina, estuda, pesquisa e discute é livre.
Isso é tão evidente que só as pessoas sistemáticas ou amantes de sofismas podem por em dúvida.
A posição filosófica do espiritismo no assunto é de clareza meridiana. Estamos condicionados pela encarnação a um meio físico, a um corpo animal, a uma cultura. Mas somos livres, como espíritos, para utilizar esse condicionamento da maneira que entendermos. E tanto maior é a liberdade do homem, quanto mais ele se define como espírito.
O que incentiva as opiniões negativas, que procuram apresentar o homem como um robô, sempre dominado pelas circunstâncias, é a cegueira materialista. Quanto mais apegado à matéria e à concepção materialista do mundo, mais sujeito é o homem a duvidar da sua liberdade, que é a própria essência da sua natureza espiritual. Entretanto, no próprio jogo das coisas materiais o homem sabe que é livre de fazer ou não fazer isto ou aquilo.