2.6.10




A CONVERSÃO DE HERCULANO






A CONVERSÃO

Jorge Rizzini


Desde a adolescência que temas filosóficos, inclusive, de caráter religioso, interessaram Herculano Pires. Nascido em família católica, permaneceu no catolicismo até aos quinze anos de idade. Depois, veio a crise. O que o levou a converter-se ao espiritismo? Em uma entrevista gravada pelo autor destas linhas, revelou Herculano Pires:

“Foi o raciocínio que me levou ao espiritismo. O desejo de compreender aquilo que a religião a que eu pertencia, a religião católica, nunca pôde me explicar. Essa necessidade me impelia, naturalmente, a procurar, a indagar. Nessas indagações eu passei por várias fases. Não passei diretamente do catolicismo para o espiritismo. Antes, por influência de um primo de meu pai, Francisco Corrêa de Melo, residente em Santos, me tornei teosofista. Li várias obras de teosofia, procurei aprofundar-me no estudo, encontrei ali muitas respostas que em vão havia buscado na religião da família. Depois, desiludi-me, também, da teosofia. Porque me dava certas explicações que também me pareceram absurdas. Eu queria algo que fosse mais positivo, que estivesse mais em ligação com a possibilidade de provas concretas. E foi, então, numa fase de incerteza, quando eu já estava aceitando, praticamente, o materialismo, que me caiu nas mãos O livro dos espíritos. E nesse livro eu encontrei, realmente, aquilo que procurava.”

Em entrevista concedida a Everardo Tibiriçá, publicada em São Paulo no extinto Jornal da Manhã (edição de 17 de agosto de 1975), Herculano Pires acrescentou estes detalhes sobre sua conversão:

“Eu não queria saber do espiritismo, que por minha formação considerava um amontoado de superstições. Um dia, meu saudoso amigo Dadício de Oliveira Baulet me desafiou a ler O livro dos espíritos de Allan Kardec. A contragosto aceitei o desafio e o estou lendo e estudando até hoje. Tornei-me espírita pelo raciocínio. Isso ocorreu em 1936; eu tinha, então, 22 anos.”1


Foi a lógica indestrutível de O livro dos espíritos que converteu Herculano Pires, é verdade, mas por outro lado não nos esqueçamos que tivera ele na infância visões mediúnicas jamais esquecidas e que, ao reencarnar, trouxera no inconsciente grande parte do manancial de sabedoria contido na obra de Allan Kardec.

Essa primeira leitura de O livro dos espíritos teve a ação de um vendaval na alma do moço Herculano Pires. A obra lhe pareceu um marco na história da evolução da humanidade. Kardec derrubara as barreiras da morte e obtivera dos espíritos a solução dos enigmas do destino. E, nessa noite memorável, ao constatar que o livro era constituído de mil e dezenove perguntas de Kardec, cujas respostas dos espíritos, plenas de sabedoria, abarcavam as três grandes áreas do conhecimento – ciência, filosofia e religião –, no silêncio de seu quarto Herculano Pires fez a seguinte reflexão (mais tarde ele poria estes pensamentos em letra de forma):

“Nunca houve um diálogo como este. Jamais um homem se debruçou, com toda a segurança do homem moderno, nas bordas do abismo do incognoscível, para interrogá-lo, ouvir as suas vozes misteriosas, contradizê-lo, discutir com ele, e afinal arrancar-lhe os mais íntimos segredos. E nunca, também, o abismo se mostrou tão dócil, e até mesmo desejoso de se revelar ao homem em todos os seus aspectos.”2

E ao pensar que fora até aquele dia teosofista, Herculano Pires acariciou O livro dos espíritos... E refletiu:

“A doutrina dos espíritos aborda desde logo os mais altos problemas de filosofia que agitavam o século dezenove e lançou em terreno firme as bases de uma nova interpretação e de uma nova concepção da vida e do mundo. Constitui mesmo, desde o início, uma poderosa reação a duas escolas que pareciam ameaçar o mundo com imediata conquista: o marxismo e o positivismo.

“A teosofia apareceu dezoito anos após o espiritismo, tentando negá-lo através de uma elaboração cultural elevada, mas muito mais ligada à tradição hinduísta do que ao espírito científico do nosso tempo. Só o espiritismo, como queria Kardec, enquadra-se perfeitamente na orientação científica. Kardec, logo nas primeiras páginas de O livro dos espíritos define os rumos seguros da doutrina espírita, a sua natureza e o seu papel no mundo moderno. O espiritismo é uma doutrina que desloca o problema do espírito do terreno nebuloso do dogmatismo religioso, abrindo-lhe as perspectivas da análise e da investigação científicas e ao mesmo tempo renova a questão religiosa, oferecendo-lhe a possibilidade da fé racional.

“Não dispondo de nenhum sistema litúrgico, não possuindo cerimoniais, sacramentos ou qualquer espécie de regras e simbolismos para o culto externo, o espiritismo se firma apenas no coração e na consciência dos adeptos. Representa o espiritismo, por isso mesmo, aquele momento anunciado por Jesus à samaritana, quando lhe declarou: 'A hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o pai em espírito e verdade'. Ser espírita, portanto, é viver o espiritismo. É transformar os princípios doutrinários em norma viva de conduta, para todos os instantes de nossa curta existência na terra. É praticar, enfim, o espiritismo, não apenas no recinto dos centros ou no convívio dos confrades, mas em toda parte em que nos encontremos – na rua, no trabalho, no lar, na solidão dos próprios pensamentos.”3

Herculano Pires assim agiu no decorrer de sua vida. E no dia seguinte o jovem convertido adquiriu as demais obras de Allan Kardec.

Mas a assimilação total de todos os conceitos da codificação kardeciana só foi possível após anos de estudo sistemático.