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Artigo

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Poeta, escritor, jornalista, filósofo, Herculano Pires foi um estudioso da Doutrina Espírita, e um de seus maiores divulgadores. Autor de mais de 80 obras, a maioria dedicada ao Espiritismo, foi o grande defensor da pureza doutrinária, tendo sido definido por Emmanuel, por intermédio de Chico Xavier como “o metro que melhor mediu Kardec”.




Quinta-feira, 18 de Julho de 2013




SOBRE A OBRA DE ROUSTAING


Por Herculano Pires

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“A infância mágica de Jesus, contada na obra de Roustaing, faz lembrar certos Evangelhos apócrifos, que descreveram a vida do menino através de incríveis peripécias. Nos trechos acima vemos a descrição anedótica da amamentação aparente de Jesus. Maria, mais uma vez, continuava iludida. O menino fingia mamar. A transformação do sangue em leite é um ato de magia, digno de figurar nas estórias para adolescentes.

“A permanência de Jesus em Jerusalém, nos três dias em que esteve perdido para os pais, caberia num enredo de aventuras infantis. Os “ministros de Deus”, que deram a nova revelação, criaram uma nova categoria Angélica: a dos anjos guarda-roupas. Seria difícil imaginar-se maneira mais adequada de ridicularizar o Espiritismo aos olhos das pessoas de bom senso. A aceitação de uma obra como esta pelos espíritas e a sua divulgação só pode explicar-se pela falta de discernimento.

“Roustaing é o anti-Kardec. Se Kardec é o bom senso, Roustaing é a falta de senso. A esta altura do exame dos textos já não se pode permanecer em atitude neutra diante dos absurdos que surgem a cada passo. Estamos em pleno mar da imaginação, flutuando ao sabor das ondas. Mas, há uma intenção evidente - a de lançar o ridículo sobre o Espiritismo.

“Quando falamos de magia não estamos nos referindo à magia natural, que decorre das funções mediúnicas, mas sim da magia primitiva ou anímica, bem definida por Malinowski, que tanto existe nas selvas como nos meios mais civilizados. É esse o tipo de magia que constitui a essência do Roustainguismo, na mesma linha do pensamento mitológico que gerou a teoria grega do corpo fluídico de Jesus na era apostólica, como vemos nas epístolas de Pedro e João.

“A anedota da amamentação de Jesus exemplifica bem esse tipo de magia. Jesus menino não aparece ali como um ser real, mas como um ser artificial, um deus mitológico que se disfarça numa criatura humana, como o faziam os deuses gregos e romanos para iludirem os homens e pregar-lhes as suas peças. Usando o poder mágico da transmutação (alquimia) ou da transubstanciação (teologia), o menino mitológico (e portanto ante-cristão) mudava o leite materno em sangue e o devolvia à circulação no corpo de Maria. É uma adaptação ao Espiritismo do dogma católico da eucaristia.

“Pode-se alegar que isto seria possível por meio da ação mediúnica. O caso da transformação da agia e, vinho, citado no Evangelho, poderia justificar essa teoria. Mas não podemos esquecer as seguintes diferenças: quando Jesus operou a transformação da água em vinho, não o fez para iludir ninguém, mas para demonstrar os seus poderes e despertar a fé nos que deviam ouvi-lo; foi, portanto, uma ação moralmente lícita, como todas as suas ações; essa transmutação (química e não alquímica) não foi uma encenação, mas um fato real, ainda hoje constatável na atividade mediúnica. A transmutação do leite de Maria implica problemas morais inadmissíveis numa personalidade espiritual elevada, tanto mais que por trás dela encontra-se todo o complexo fantasioso e absurdo do nascimento fingido. Estaríamos diante desta contradição que minaria os alicerces do Cristianismo e de todo conceito espiritual: a verdade revelada através da mentira.

“Não podemos separar os princípios éticos do contexto de nenhum problema espiritual. Alega-se também que Jesus ensinava em parábolas. Mas as parábolas não são mentiras, são formas alegóricas, simbólicas de transmissão da Verdade. A própria Psicologia materialista constatou essa necessidade de sermos verdadeiros no ensino das coisas mais corriqueiras, condenando as explicações fantasiosas do nascimento das crianças. Se a lenda ingênua da cegonha é um mal por ser mentirosa, que dizer do mito absurdo do nascimento fingido de Jesus? O uso da alegoria é válido e prepara o advento da verdade, mas o uso do fingimento é próprio dos mistificadores, dos embusteiros, das criaturas falsas e não de espíritos esclarecidos.

“O mesmo se aplica ao episódio ridículo da permanência de Jesus menino em Jerusalém. O menino não era menino, mas um espírito adulto disfarçado em criança. Enganava os doutores da lei com suas respostas astuciosas e enganava o povo com suas fugas para o Céu, deixando as roupas em mãos dos anjos que o ajudavam na mistificação. E por que tudo isso? Porque em Jerusalém, justificam os “ministros de Deus”, era difícil encontrar lugar para um menino permanecer três dias sozinho. Desculpa tola, como se vê, que só tem uma justificativa: uma mentira puxa a outra. 

“Bem precário seria o poder divino se estivesse submetido à condição de recorrer aos ardis humanos, às espertezas comuns dos passadores de conto do vigário, para poder trazer a Verdade à Terra. Não são os mestres espirituais que se utilizam dessas formas grosseiras de mistificação, mas os espíritos mistificadores, os embusteiros vulgares. Justifica-se pois o ardor de João, o evangelista, e de Pedro, o apóstolo, ao repelirem a teoria do corpo fluídico, bem como o ardor de Paulo ao nos advertir contra as fábulas que desfiguram a Doutrina do Cristo.

“A frase do último trecho acima citado: “Voltava para as regiões superiores onde pairava e paira ainda...”, encerra uma malícia diabólica. Afirmando que Jesus retornava aos esplendores celestes como espírito protetor de governador da Terra, ela retende encobrir com essa declaração enfática o ridículo da esperteza do menino. Os corações ingênuos se comovem com essa falsa abnegação de um deus mitológico, obrigado a participar entre os homens de uma pantomima celeste, e o raciocínio enganado justifica o mito”.


(José Herculano Pires, em “O Roustainguismo à luz dos textos”, parte primeira do livro “O VERBO E A CARNE” – págs. 29 a 32 - Edições Cairbar, de São Paulo / SP – 1ª edição, 1973)




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Poeta, escritor, jornalista, filósofo, Herculano Pires foi um estudioso da Doutrina Espírita, e um de seus maiores divulgadores. Autor de mais de 80 obras, a maioria dedicada ao Espiritismo, foi o grande defensor da pureza doutrinária, tendo sido definido por Emmanuel, por intermédio de Chico Xavier como “o metro que melhor mediu Kardec”.




Quinta-feira, 11 de julho de 2013




NECESSIDADE DE ESTUDAR KARDEC

PARA DISCERNIMENTO DOUTRINÁRIO

Por Herculano Pires

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Há muitas confusões, feitas intencionalmente ou não, entre o Espiritismo e numerosas formas de crendice popular, inclusive as formas de sincretismo religioso afro-brasileiro, hoje largamente difundidas. Adversários da Doutrina Espírita costumam fazer intencionalmente essas confusões com o fim de afastar do Espiritismo as pessoas cultas. Por outro lado, alguns espíritas mal orientados, que não conhecem a própria Doutrina, colaboram nesse trabalho de confusão, admitindo como doutrinárias as mais estranhas manifestações mediúnicas e as mais evidentes mistificações.
Alguns leitores se mostram justamente alarmados com a larga aceitação que vêm tendo, em certos meios doutrinários, práticas de Umbanda e comunicações de Ramatis. E nos escrevem a respeito, pedindo uma palavra nossa sobre esses assuntos. Na verdade, já escreve­mos numerosas crônicas tratando da necessidade de vigilância nos meios espíritas, de maior e mais seguro conhecimento dos nossos princípios, e apontando os perigos decorrentes do entusiasmo fácil, da aceitação apressada de certas inovações. Mas, para atender às solicitações, voltaremos hoje ao assunto.

Kardec dizia, com muita razão, que os adeptos demasiado entusiastas são mais perigosos para a Doutrina do que os próprios adversários. Porque estes, com­batendo o que não conhecem, evidenciam a própria fraqueza e contribuem para o esclarecimento do povo, enquanto os adeptos de entusiasmo fácil comprometem a causa. O que estamos vendo hoje, no meio espírita brasileiro, não é mais do que a confirmação dessa assertiva do Codificador. Espíritas demasiado entusiastas estão sempre prontos a receber qualquer “nova revelação” que lhes seja oferecida, e a divulgá-la sofregadamente, como verdades incontestáveis. Que diferença entre o equilíbrio e a ponderação de Kardec e essa afoiteza inútil e prejudicial!


No tocante à Umbanda, já dissemos aqui, numero­sas vezes, que se trata de uma forma de sincretismo religioso, ou seja, de mistura de religiões e cultos, com a qual o Espiritismo nada tem a ver. As formas de sincretismo religioso são, praticamente, as nebulosas sociais de que nascem as novas religiões. A Umbanda já superou a fase inicial de nebulosa, estando agora em plena fase de condensação. É por isso que ela se difunde com mais intensidade. Já se pode dizer que é uma nova religião, formada com elementos das crenças africanas e indígenas, misturados a crenças e formas de culto do catolicismo e do islamismo em franco desenvolvimento entre nós. O Espiritismo não participou da sua formação, embora os nossos sociólogos, em geral, exatamente por desconhecerem o Espiritismo, digam o contrário, pois confundem o mediunismo primitivo, de origem africana e indígena, com os princípios de uma doutrina moderna. Nós, espíritas, devemos respeitar na Umbanda uma religião nascente, mas não podemos admitir confusões entre as suas práticas sincréticas e as práticas espíritas.


Quanto às mensagens de Ramatis, também já tive­mos ocasião de declarar que se trata de mensagens mediúnicas a serem examinadas. De nossa parte, consideramo-las como mensagens confusas, dogmáticas, vaza­das na linguagem típica dos espíritos pseudo-sábios, a que Kardec se refere na escala espírita de O Livro dos Espíritos. Cheias de afirmações absurdas, e até mesmo contraditórias, essas mensagens revelam uma fonte que devia ser encarada com menos entusiasmo e com mais cautela pelos espíritas. Em geral, nossos confrades se entusiasmam com “as novas revelações” aparentemente contidas nas mesmas, esquecendo-se de passá-las, como aconselhava Kardec, pelo crivo da razão.

O que temos de aconselhar a todos, pelo menos a todos os que nos consultam a respeito, é mais leitura e mais estudo de Kardec, e menos atenção a espíritos que tudo sabem e a tudo respondem com tanta facilidade, usando sempre uma linguagem envolvente, em que nem todos sabem dividir a verdade do erro. “O Espiritismo”, dizia Cairbar Schutel, “é uma questão de bom senso”. Procuremos andar de maneira sensata, na aceitação de mensagens mediúnicas.




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Artigo

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Poeta, escritor, jornalista, filósofo, Herculano Pires foi um estudioso da Doutrina Espírita, e um de seus maiores divulgadores. Autor de mais de 80 obras, a maioria dedicada ao Espiritismo, foi o grande defensor da pureza doutrinária, tendo sido definido por Emmanuel, por intermédio de Chico Xavier como “o metro que melhor mediu Kardec”.






Quinta-feira, 4 de Julho de 2013




ENTREVISTA

Com Herculano Pires




"Um fanático espírita é uma aberração", diz Herculano Pires
2011-02-04 08:59:31

Leia também:
Herculano, o metro de Kardec
2009-03-20 12:42:24
Herculano, se vivo estivesse, com certeza estaria à tribuna e à pena jornalística, desafiando tal qual Dom Quixote, elegantemente, aqueles a quem chamava de “detratores do Espiritismo”, para que se explicassem e se posicionassem “fora” do espectro espiritista.
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Herculano Pires e a construção da Civilização
2007-04-10 13:07:01
[ Manoel Fernandes Neto] De escrita vigorosa, era tido entre confrades como o "zelador do espiritismo", pela sua defesa intransigente da codificação kardeciana e a harmonia entre o três pilares da doutrina; contra o que ele classificava de sentimento igrejeiro exacerbado de associações e centros espíritas, sempre dispostos a cultivar dogmas e crendices e a fazer"bocas de siris" às deformações que as ciências e as religiões teimavam em inserir o espiritismo
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Agonia das religiões 
2007-05-09 10:33:43
[Herculano Pires] As Religiões estão morrendo. Este é um dos fatos marcantes do nosso tempo, mais precisamente do Século XX. O poder das Religiões não é mais religioso, mas simplesmente econômico, político e social.
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O Espírito e o Tempo é obra-prima para estudo
2010-12-31 17:33:16
Livro fundamental para entendermos a Doutrina Espírita. Leia o texto de Macedo Sarra e ouça o programa de Heloisa Pires sobre o livro de Herculano Pires.
Leia. Comente 

Introdução LE - Por Herculano Pires
2010-12-22 10:09:43
"O Livro dos Espíritos", é o código de uma nova fase da evolução humana. E é exatamente essa a sua posição na história do pensamento. Este não é um livro comum, que se pode ler de um dia para o outro e depois esquecer num num canto da estante. Nosso dever é estudá-lo e meditá-lo, lendo-o e relendo-o constantemente.
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Aos viajores dos mundos 
2007-07-09 08:47:37
[Manoel Fernandes Neto] “Estar no mundo, sem ser do mundo” é a autêntica sabedoria do Mestre de Nazaré; só nos resta interiorizar este ensinamento. Ou seja, sermos capazes de ter os pés fincados na terra, com todas as suas atribulações, mas com a consciência de que somos espíritos imortais, incorruptíveis como essência divina. Capazes de reagir enquanto mantivermos nossa consciência em alerta contra as armadilhas da nossa personalidade.
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A Desfiguração do Cristo 
2008-01-28 16:56:54
[Herculano Pires] O interesse em desfigurar o Cristo vem dos planos inferiores do mundo espiritual e se manifesta de várias formas.
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O espírita e a cultura
2007-04-10 12:54:07
[ José Herculano Pires] O Espírita tem o dever de instruir-se, de integrar-se na cultura do seu tempo.
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O mistério do ser
2007-04-11 12:41:26
[Heloisa Pires] Lideres religiosos manipulavam o medo e a dor iniciando “a herança do obscurantismo, alimentados pela magia primitiva, pelo temor do sagrado, pela nebulosidade dos conceitos formais sobre as coisas e seres gerando um pandemônio que não podia levar a nada” (Herculano Pires).
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Por Léia Tavares
Difícil apresentar em tão poucas linhas o entrevistado desta edição. Por onde começar? Jornalista, poeta, filósofo, educador, Herculano Pires está entre os grandes pensadores da Doutrina Espírita. Foi um dos responsáveis pela tradução das obras da Codificação para o português, escreveu mais de 80 títulos entre filosofia, ciência, parapsicologia, poesia, romance e infantis. Era assumidamente um escritor compulsivo.
Nascido em Avaré, interior de São Paulo, em 25 de outubro de 1915, aos noves anos Herculano escreveu seu primeiro soneto; já na adolescência, aos 16, publicou Sonhos Azuis (contos), seu primeiro livro. Durante os anos que se seguiram, Herculano ingressou na carreira jornalística. Escreveu para diversos órgãos da imprensa, tornou-se presidente do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo e fundou o Clube dos Jornalistas Espíritas de São Paulo. Durante quase 20 anos, manteve uma coluna nos Diários Associados com o pseudônimo de Irmão Saulo, na qual divulgou diariamente os preceitos espíritas na imprensa leiga.
Nesta edição, resgatamos uma entrevista que Herculano Pires concedeu ao primeiro Anuário Espírita, em 1964. Naquela ocasião, o jornalista e filósofo foi questionado sobre diversos temas: parapsicologia, tradução das obras da Codificação, filosofia e fanatismo. “Do ponto de vista espírita, um fanático espírita, é uma aberração, porque o Espiritismo, está sujeita ao exame crítico. Onde se fala de crítica, no sentido exato do termo, que é o do exame aprofundado e sereno das coisas, não há lugar para manifestações de fanatismo”, disse o escritor.
Herculano Pires morreu em 9 de março de 1979, após sofrer um ataque cardíaco. Para quem tiver interesse em conhecer mais a seu respeito de sua vida e obra, em São Paulo, foi inaugurada, em 2004, a Fundação Maria Virgínia e J. Herculano Pires. A instituição tem por finalidade conservar o acervo do escritor. A sede fica na mesma casa onde Herculano viveu, e permanece como na mesma época. Lá o visitante pode encontrar livros, fotografias e objetos pessoais de Herculano Pires. Nestas páginas, ao ler esta entrevista, mesmo quem nunca ouviu falar de Herculano Pires consegue perceber a profundidade de seu conhecimento.

Quais os pontos em comum entre Espiritismo e parapsicologia?
A parapsicologia é o estudo científico, por meio de experiências de laboratório, dos fenômenos espíritas. Os pontos em comum são, portanto, o objeto e a finalidade dos estudos, pois tanto o Espiritismo quanto a parapsicologia investigam os mesmos fenômenos e procuram explicá-los. A diferença entre ambos é que a parapsicologia age no plano das ciências físicas, empregando métodos de investigação comuns a essas ciências, enquanto o Espiritismo, como assinalou Allan Kardec, sendo uma ciência espiritual emprega outros métodos.

Por que alguns espíritas conhecedores dos princípios doutrinários do Espiritismo se preocupam com a divulgação dos conhecimentos parapsicológicos?
Considero-me entre os espíritas que se interessam não em demasia, mas de maneira necessária, pelo estudo e divulgação da parapsicologia. Não sou conhecedor profundo da doutrina, mas julgo-me bem intencionado. É claro que, sendo a parapsicologia a primeira ciência oficial, se assim podemos dizer, interessar-se, séria e profundamente, pela investigação dos fenômenos espíritas, devemos interessar-nos por ela. Temos mesmo o dever de acompanhar o seu desenvolvimento e dar-lhe a nossa contribuição. Como diz o professor Joseph Banks Rhine, conhecido como o “pai da parapsicologia”, é ela a primeira ciência a revolucionar o mundo fechado das ciências oficiais, revelando a existência de “um universo extrafísico”. Basta dizer que a parapsicologia já provou, cientificamente, a existência de fenômenos espíritas: a telepatia, a clarividência, a precognição (profecia), e a psicocinesia (ação da mente, e portanto do espírito, sobre a matéria). E com isso se apresenta, também, como nova porta aberta ao conhecimento da realidade espiritual, para aqueles que não querem entrar pela porta do Espiritismo, em virtude de sua formação científico-materialista.

Qual a diferença fundamental entre parapsicologia e metapsíquica?
A diferença entre parapsicologia e metapsíquica não é fundamental, mas superficial. Consiste apenas na metodologia. A metapsíquica enfrentava os fenômenos espíritas por meio da chamada investigação qualitativa. A metapsíquica se interessava pela qualidade dos fenômenos; a parapsicologia, sem poder, evidentemente, deixar de lado o critério qualitativo, interessa-se fundamentalmente pela quantidade, segundo o critério geral da investigação científica materialista. O método quantitativo da investigação parapsicológica consiste na repetição exaustiva das experiências, para a verificação da existência ou não dos fenômenos, por meio de controle estatístico das ocorrências nas bases do cálculo de probabilidades.

Por que Allan Kardec se serviu do método dialético ao organizar O Livro dos Espíritos?
Kardec serviu-se do método dialético de exposição, mais propriamente chamado de método dialogado, por uma questão de fidelidade ao texto dos Espíritos, que lhe era dado em formas de respostas. Não havia e não há nenhum inconveniente nesse fato. O diálogo é uma forma tradicional e fecunda de exposição filosófica.
Na tradução que você fez de O Livro dos Espíritos, da Lake, há uma note que nega a Doutrina Espírita seja um sistema filosófico (conjunto fechado de idéias concebidas para explicar os fenômenos). Por quê?
Quem nega o caráter sistemático do Espiritismo é o próprio Kardec nos “Prolegômenos” de O Livro dos Espíritos; quando diz que o livro foi escrito “por ordem e sob ditado dos Espíritos Superiores, para estabelecer os fundamentos de uma filosofia racional, livre dos prejuízos do espírito de sistema”. Isso não quer dizer que não haja um sistema doutrinário espírita, o que seria absurdo. Toda doutrina é um sistema. Mas, há sistemas livres, dinâmicos, e sistemas fechados, estáticos.

Qual a diferença entre esses dois tipos de sistemas?
Os sistemas livres correspondem ao espírito da filosofia; já os sistemas fechados, ao espírito das religiões. Como a filosofia nasceu da religião, e esta era, interpretada sempre de forma rigidamente sistemática, durante muito tempo os filósofos elaboraram grandes sistemas filósofos elaboraram grandes sistemas filosóficos, que fizeram época. No tempo de Kardec, os sistemas filosóficos imperavam. O sistema de Hegel (1770-1831), por exemplo, e o de Tomás de Aquino (1225-1274). E nesse mesmo tempo surgiam dois novos sistemas: o positivismo e o marxismo. Eram o que podemos chamar “sistemas-sistemáticos”, construções dogmáticas do pensamento. Os Espíritos Superiores indicaram a Kardec a inconveniência dessas construções, que encarceravam o pensamento em determinados princípios. Daí a formulação por Kardec de um “sistema não-sistemático”, ou seja, livre “dos prejuízos do espírito de sistema”. Uma doutrina que, à maneira do Evangelho, se constituía de orientações gerais do pensamento. Este é um aspecto que nos revela a perfeita atualidade do Espiritismo, no plano filosófico.

Um fanático espírita pode ser pior que um fanático de outras religiões?
Do ponto de vista espírita, um fanático espírita, é uma aberração, porque o Espiritismo é uma doutrina racional, que não comporta fanatismo. Já vimos que a fé, no Espiritismo, está sujeita ao exame crítico. Onde se fala de crítica, no sentido exato do termo, que é o do exame aprofundado e sereno das coisas, não há lugar para manifestações de fanatismo. Kardec já dizia, porém, que o entusiasmo excessivo é mais prejudicial à Doutrina que as campanhas dos adversários. Se entendermos por fanatismo o exagerado entusiasmo de certas pessoas, não há dúvida que isso é mais prejudicial à Doutrina do que o fanatismo dos que a combatem.

Quais erros os diversos tradutores dos livros de Kardec cometeram?
Erros de tradução sempre existem, mesmo nas melhores obras. Quando traduzi O Livro dos Espíritos, minha intenção não foi a de corrigir os outros tradutores, mas a de trazer uma tradução nova, mais adequada ao estilo atual. É claro que aproveitei a oportunidade para tentar algumas correções, mas o editor me castigou, lançando uma edição mais cheia de erros gráficos de que todas as anteriores. Não foi, porém um castigo à vaidade, pois não pensei jamais em traduzir melhor do que os outros. Pelo contrário, os outros me abriram caminho e muito me ajudaram. As correções que tentei não eram de importância fundamental. Podiam ter sido feitas nas revisões de cada nova edição. Em alguns livros, porém, como A Gênese, há erros mais sérios. Onde Kardec escreveu: “as religiões sempre foram instrumentos de dominação”, saiu em português: “demolição”. Coisas assim podem ser erros gráficos, e não propriamente de tradução. O que falta, como se vê, é mais cuidado com a publicação das obras de Kardec.

Qual o texto mais admirável que encontrou nas obras de Codificação?
Toda a obra de Kardec é um admirável monumento de lógica e espiritualidade. Não obstante, é justo que um trecho ou outro se imponha à preferência do estudante. De minha parte, considero particularmente admiráveis pela fluência e clareza do estilo, a precisão expositiva, a riqueza da argumentação e profundidade conceitual, os seguintes trechos: capítulo V da 2ª parte de O Livro dos Espíritos, intitulado “Considerações sobre a pluralidade das existências”; capítulo I e II da introdução de O Evangelho Segundo o Espiritismo, respectivamente intitulado “Objeto desta obra” e “Autoridade da Doutrina Espírita”; e o capítulo VI de A Gênese, intitulado “Uranografia Geral”, comunicação de Galileu através de Camille Flammarioon, um dos trechos mais discutidos, e entretanto menos estudado, de toda a Codificação, revelando profundidade filosófica, e beleza poética do mais alto grau.
Para saber mais – J. Herculano Pires; de Jorge Rizzini Paidéia; Anuário Espírita 1964. IDE.




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Poeta, escritor, jornalista, filósofo, Herculano Pires foi um estudioso da Doutrina Espírita, e um de seus maiores divulgadores. Autor de mais de 80 obras, a maioria dedicada ao Espiritismo, foi o grande defensor da pureza doutrinária, tendo sido definido por Emmanuel, por intermédio de Chico Xavier como “o metro que melhor mediu Kardec”.






Quinta-feira, 11 de Abril de 2013




A EDUCAÇÃO SEGUNDO HERCULANO



Entrevista com Herculano Pires





O exercício da educação moral é o que pode fazer a diferença na conturbada sociedade de hoje. Herculano Pires, escritor e expositor de grande importância para a Doutrina Espírita, dedicou-se muito ao tema. Seu livro “Pedagogia espírita” é uma importante coletânea de uma revista sobre educação que Herculano mantinha. Trazemos ao leitor algumas idéias contidas no livro sobre o tema, em forma de entrevista.

PALAVRA ESPÍRITA Herculano, o que é educar?
HERCULANO PIRES Educar é decifrar o enigma do ser em geral e de cada ser em particular, de cada educando. O ser humano, em todas as épocas e em toda parte, foi sempre o mesmo. Sua constituição física, sua estrutura psicológica, sua consciência são iguais em todos os seres humanos. Essa igualdade fundamental e essencial é o que caracteriza o homem. As diferenças temperamentais, culturais, de tipologia psicológica, de raça ou nacionalidade, de cor ou tamanho são apenas acidentais. Porém, essa padronização não ajuda a simplificar a educação porque por baixo do aspecto padronizador surgem as diferenciações individuais e grupais. (...) Cada ser humano tem uma personalidade. E é desde o nascimento, pois já nasce formada com sua complicada estrutura que vai apenas desenvolver-se no crescimento e na relação social. É difícil para o educador dominar todas essas variações e orientá-las.

PALAVRA ESPÍRITA Se educar é descobrir o enigma do ser, como deve agir o educador nesse processo de descoberta?
HERCULANO PIRES A Educação se apresenta como Ciência, Filosofia, Arte e Religião. É Ciência quando investiga as leis da complexa estrutura humana. É Filosofia quando, de posse dessas leis, procura interpretar o homem. É Arte quando o educador se debruça sobre o educando para tentar orientá-lo no desenvolvimento de seus poderes internos vitais e espirituais. É Religião porque busca a salvação do ser humano no torvelinho de todas as ameaças, tentações e perigos do mundo. Segundo René Hubert, pedagogo francês contemporâneo, a Educação é um ato de amor, pelo qual uma consciência formada procura elevar ao seu nível uma consciência em formação. Esse é o caminho para a descoberta do enigma do ser.

PALAVRA ESPÍRITA O que é Educação Espírita?
HERCULANO PIRES É o processo de orientação das novas gerações de acordo com a visão nova que o Espiritismo nos oferece da realidade. A realidade compreende o mundo e o homem. Para o homem viver com proveito no mundo, deve saber, antes de mais nada, o que ele próprio é e qual o seu destino. (...) Nada disso pode ser conhecido sem o conhecimento dos princípios espíritas.

PALAVRA ESPÍRITA Porque a Educação Espírita é importante no processo de educação do ser?
HERCULANO PIRES Porque ela objetiva a Educação Integral e Contínua do Ser, abrangendo ao mesmo tempo todo o complexo da personalidade do educando e todas as faixas etárias em que ela se projeta. Sendo o Espiritismo uma doutrina que abrange, em seus três aspectos fundamentais – a Ciência, a Filosofia e a Religião – todas as facetas do Homem, visando necessariamente à unificação do Conhecimento, é evidente que a Educação Espírita só pode ser integral e contínua, indo de extremo a outro da existência humana. Ligada historicamente à linha rousseauniana da Educação Moderna, através de Pestalozzi, de quem Kardec foi discípulo e continuador, a Educação Espírita se entrosa naturalmente nas aspirações e nos objetivos da Pedagogia contemporânea.

PALAVRA ESPÍRITA Herculano, onde a Educação Espírita deve começar?
HERCULANO PIRES A Educação Espírita começa no lar. Nas famílias espíritas é dever dos pais iniciar os filhos nos princípios doutrinários desde cedo. A falta de compreensão da doutrina faz que certas pessoas pensem que as crianças não devem preocupar-se com o assunto. Essas pessoas se esquecem de que os seus filhos necessitam de orientação espiritual e que essa orientação será tanto mais eficiente quanto mais cedo lhes for dada. Os espíritos que se reencarnam em famílias espíritas já vêm para esse meio para receberem desde cedo o auxílio de que necessitam. Os pais que, a pretexto de respeitar a liberdade de escolha de quem ainda não pode escolher, ou de não forçar os filhos a tomarem um rumo certo na vida, deixam de iniciar os filhos no Espiritismo, estão faltando com os seu deveres mais graves. Descuidar da educação espírita dos filhos é negar-lhes a verdade.

PALAVRA ESPÍRITA Qual é a melhor maneira de desenvolver a educação espírita no lar?
HERCULANO PIRES É organizar festinhas domingueiras com prece, recitativos infantis de tema evangélico, explicação de parábolas, canções espíritas e brincadeiras criativas, que ajudem a despertar a criatividade das crianças. Espiritismo é alegria, espontaneidade, sociabilidade. Essas festinhas preparam o espírito da criança para o aprendizado nas aulas dos Centros e para as aulas de Espiritismo na escola.




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